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Terapias emergentes em oncologia (2025)

Esta página é educacional e reflete o estado da literatura em 2025. Não substitui orientação clínica.

TL;DR

O que é "emergente" em oncologia em 2025 não é uma coisa só — é um portfólio de tecnologias convergentes: bloqueio de checkpoint expandido, próxima geração de CAR-T / CAR-NK / TIL, conjugados anticorpo-fármaco (ADCs), anticorpos biespecíficos e T-cell engagers, vacinas de mRNA personalizadas para câncer, biópsia líquida para detecção precoce e DMR, edição gênica (CRISPR / base / prime), terapia com radioligantes e suporte à decisão com IA. A maioria está em estágio de pesquisa ou restrita a indicações específicas; algumas já são padrão de cuidado. Ler a área exige distinguir aprovado de promissor de press release.


1. Mapa do campo

ModalidadeStatus (2025)Onde mais brilha
Inibidores de checkpoint (PD-1/PD-L1, CTLA-4)Padrão de cuidadoMelanoma, CPNPC, urotelial, MSI-H, rim, cabeça e pescoço
Anti-LAG-3, anti-TIGIT, anti-TIM-3Aprovado (LAG-3) / fases avançadasMelanoma (relatlimabe + nivolumabe) e combinações
CAR-T (hematológico)Seis produtos aprovados pela FDA[1]LLA-B, LBCL, MM, LF, LCM, LLC
CAR-T (sólidos)Investigacional[2]Glioma, gástrico, sarcoma — sinais iniciais
CAR-NK / off-the-shelfFase I–IIVários
TILPrimeira aprovação 2024 (lifileucel)[1]Melanoma
TCR-TPrimeira aprovação 2024 (afami-cel)[1]Sarcoma sinovial
ADCsMainstream, em expansão[3][4]Mama HER2-low/HER2+, urotelial, gástrico, pulmão
Anticorpos biespecíficos / engagersMúltiplas aprovações[5]LBCL, MM, SCLC, melanoma, próstata (em estudo)
Vacinas de mRNA personalizadasFase II/III[6]Melanoma, pâncreas — combinadas com checkpoint
Edição CRISPR / base / primeFase I–IIAnemia falciforme aprovado; oncologia emergente
Terapia com radioligantesAprovada em casos selecionadosPróstata (Lu-PSMA), neuroendócrinos (Lu-DOTATATE)
Biópsia líquida / DMRUso clínico crescenteColorretal, mama, hematológico adjuvante
IA / patologia digitalFerramentas aprovadasTriagem em imagem, apoio à patologia

Para profundidade em itens específicos, ver Biológicos 101, Avanços em CAR-T e a seção experimental/.


2. Combinações de checkpoint e imunoterapia de próxima geração

PD-1/PD-L1 + CTLA-4 foi o primeiro duplo bloqueio em uso amplo. A onda 2024–2025 inclui:

  • Anti-LAG-3 (relatlimabe) + nivolumabe aprovado em melanoma; em curso em outras indicações.
  • Anti-TIGIT (tiragolumabe, vibostolimabe) — fases avançadas; resultados mistos até aqui.
  • Anti-TIM-3, anti-VISTA, anti-CD47 — em estágios mais iniciais.
  • Agonistas costimuladores (ICOS, GITR, OX40, 4-1BB) — isolados ou com PD-1.
  • Engenharia de citocinas (IL-2, IL-15, IL-12 engenheiradas) — rebalanceando vias sem toxicidade sistêmica.

A imunoterapia combinada amplia benefício mas também acumula eventos adversos imuno-relacionados (irAEs). O manejo de irAEs é em si uma especialidade clínica em ascensão.


3. ADCs e biespecíficos: os "burros de carga" da próxima década

ADCs combinam especificidade do anticorpo com carga citotóxica — ver Biológicos 101 para detalhes de engenharia. Os exemplos mais consequentes em 2024–2025:

  • Trastuzumabe deruxtecan (T-DXd) — redefiniu mama HER2-baixo; expandindo para pulmão e gástrico. Fontes: [4]
  • Sacituzumabe govitecan — ADC anti-Trop-2 em TNBC e urotelial.
  • Enfortumabe vedotin — primeira linha em urotelial em combinação com pembrolizumabe.

Biespecíficos em expansão: teclistamabe e elranatamabe (BCMA × CD3, MM); glofitamabe, epcoritamabe (CD20 × CD3, LNH); tarlatamabe (DLL3 × CD3, SCLC); tebentafusp (gp100 × CD3, melanoma uveal). Fontes: [5]


4. Vacinas de câncer com mRNA

A plataforma de mRNA nascida da COVID está sendo apontada para oncologia. Duas frentes:

  • Vacinas de neoantígenos personalizadas — sequenciar o tumor do paciente, prever peptídeos mutados que provavelmente serão apresentados em HLA, fabricar uma vacina de mRNA codificando esses peptídeos, ativar células T. Combinadas com inibidores de checkpoint. mRNA-4157 + pembrolizumabe em melanoma de alto risco ressecado mostrou dados de RFS de Fase II animadores em 2023; Fase III em curso. Fontes: [6]
  • Vacinas de antígenos compartilhados — off-the-shelf, mirando antígenos tumorais comuns (ex.: mutantes KRAS-G12).

Nenhuma vacina de mRNA contra câncer está aprovada ainda; várias leituras de Fase II/III esperadas entre 2025–2027. Fontes: [6]


5. Edição gênica em oncologia

  • Ex vivo — editar células T para CARs mais seguras/potentes (knockout de PD-1, TCR, HLA).
  • In vivo — entrega direta da maquinaria CRISPR via LNPs (primeiros ensaios em humanos focados em fígado; oncologia atrás da anemia falciforme).
  • Edição base / prime — alterações mais finas que CRISPR clássico de quebra dupla; menor off-target; aplicações em câncer majoritariamente pré-clínicas.

Questões de segurança específicas para câncer: edição off-target, eventos cromotrípticos observados em altas taxas de edição, mutagênese insercional com vetores virais.


6. Terapia com radioligantes (teranóstica)

Acoplar um peptídeo ou anticorpo direcionado a tumor a um isótopo terapêutico (β-emissor ¹⁷⁷Lu, α-emissor ²²⁵Ac):

  • ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 — aprovado em câncer de próstata metastático resistente à castração.
  • ¹⁷⁷Lu-DOTATATE — aprovado em tumores neuroendócrinos com receptor de somatostatina positivo.
  • Vários outros em desenvolvimento clínico — FAP, alvos integrina, conjugados HER2, construções alfa-emissoras.

O enquadramento "teranóstico" é poderoso: mesmo alvo, duas cargas — uma diagnóstica (PET), outra terapêutica. Alinha desenvolvimento de droga e biomarcador de imagem naturalmente. Contexto brasileiro: a infraestrutura nacional limitada de radiofármacos é gargalo real.


7. Biópsia líquida para DMR e detecção precoce

Dois usos distintos, frequentemente confundidos:

  • DMR (doença residual mínima) — após terapia com intenção curativa, detectar doença remanescente via ctDNA. Aprovada/usada em decisões adjuvantes em CRC, mama, e cada vez mais em sólidos. Alta especificidade; sensibilidade depende do shedding do tumor.
  • Detecção precoce multi-câncer (MCED) — rastrear populações saudáveis em busca de sinal de câncer no cfDNA plasmático. Galleri (GRAIL), comercialmente disponível em alguns mercados, mas ainda não aprovada pela FDA; avaliação prospectiva em curso. Trade-offs significativos de sensibilidade/especificidade e questões de equidade.

8. Suporte à decisão com IA e patologia digital

  • Patologia — sistemas de patologia digital com aval da FDA e IA-assist para próstata, mama, cólon.
  • Radiologia — IA em mamografia para triagem, detecção de nódulo pulmonar, avaliação de resposta. Fontes: [7]
  • Interpretação genômica — tiering automático de variantes, matching com ClinicalTrials.gov.
  • Modelos foundation para dados multimodais em oncologia — literatura crescente, em geral em estágios iniciais.

Para armadilhas e como não cair em "teatro de validação", ver Armadilhas de ML em oncologia.


9. Como ler claims de "breakthrough" em 2025

Três filtros valem aplicar:

  1. Que estágio? Expansão de Fase I ≠ aprovação de Fase III. Press releases mascaram isso.
  2. Que população? Critérios de elegibilidade podem fazer um título "para todos" enganar.
  3. Qual o comparador? Respostas de braço único não equivalem a superioridade randomizada.

A lição recorrente desta lista: a maioria dessas terapias vai falhar ou ser reposicionada; algumas vão remodelar a prática. O trabalho de quem atua nessa área — clínico, técnico ou ambos — é distinguir uns dos outros com honestidade.


Veja também


Referências

  1. Brudno JN, Maus MV, Hinrichs CS. CAR T Cells and T-Cell Therapies for Cancer: A Translational Science Review. JAMA 2024;332:1924-1935. PMID 39495525. https://doi.org/10.1001/jama.2024.19462
  2. Peng L, Sferruzza G, Yang L, Zhou L, Chen S. CAR-T and CAR-NK as cellular cancer immunotherapy for solid tumors. Cell Mol Immunol 2024;21:1089-1108. PMID 39134804. https://doi.org/10.1038/s41423-024-01207-0
  3. Fu Z, Li S, Han S, Shi C, Zhang Y. Antibody drug conjugate: the "biological missile" for targeted cancer therapy. Signal Transduct Target Ther 2022;7:93. PMID 35318309. https://doi.org/10.1038/s41392-022-00947-7
  4. Dumontet C, Reichert JM, Senter PD, Lambert JM, Beck A. Antibody-drug conjugates come of age in oncology. Nat Rev Drug Discov 2023;22:641-661. PMID 37308581. https://doi.org/10.1038/s41573-023-00709-2
  5. Meyer ML, Fitzgerald BG, Paz-Ares L, et al. New promises and challenges in the treatment of advanced non-small-cell lung cancer. Lancet 2024;404:803-822. PMID 39121882. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01029-8
  6. Sayour EJ, Boczkowski D, Mitchell DA, Nair SK. Cancer mRNA vaccines: clinical advances and future opportunities. Nat Rev Clin Oncol 2024;21:489-500. PMID 38760500. https://doi.org/10.1038/s41571-024-00902-1
  7. Adams SJ, Mikhael P, Wohlwend J, et al. Artificial Intelligence and Machine Learning in Lung Cancer Screening. Thorac Surg Clin 2023;33:401-409. PMID 37806742. https://doi.org/10.1016/j.thorsurg.2023.03.001
  8. U.S. National Cancer Institute. https://www.cancer.gov/about-cancer/understanding/what-is-cancer
  9. American Cancer Society. https://www.cancer.org/cancer.html
  10. Cleveland Clinic. Cancer (visão geral). https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/12194-cancer
  11. A.C. Camargo Cancer Center. https://accamargo.org.br
  12. Fundação do Câncer (Brasil). https://www.cancer.org.br/
  13. Ministério da Saúde / BVS. ABC do câncer. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/abc_do_cancer.pdf

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